sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

quando cheguei tudo estava contornado com um vermelho atinado com a parede, a qual ela se debruçava e chorava casos; vermelhos, ela dizia. permaneço imóvel e, com a mão esquerda por dentro de meu bolso do casaco azul, declino minha cabeça e olho meus sapatos, até que se fechem e

como numa nuvem escura
minhas lágrimas

se desatem

ao lado da parede vermelha


eu choro em prantos, aparentemente tudo o que penso digo faço é questionado criticado conjugado e ela, catatônica, cuja liberdade é apenas o tabique vermelho ao qual ela se debruça e, contorcida, de rosto apoiado no joelho direito, exclama no silêncio do quarto emoções que se associam a minha condição de ser, não me entende. quem sabe precisemos de ar, mas nesse obscurantismo nada nos sobra além da droga e da vela e sua planificação luminosa: a parede vermelha. já chega, encerro por aqui meu showzinho de vaivém águas do meu olho. você sabe que poderíamos ter tido aquela vida, mas
levante
espante
o amianto
levantar
espantar
amiantonoar
levanto
espanto
amianto
levantado
espantado
e amianto
espantar-lo
levantar-lo
é o amianto

um acesso
um assédio
a miscelânia

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

baaaaaaab
sussurra em meu
ouvido
como um
a
corda de seis vo
cais e o cheiro de mar.
não-linear-assim-
como uma bana
na na madura-madeira-verde
pertur
ba-me.
(não sou de
sse se vive-se as
sim!
arco-íris plani
fica no céu e com as cores de
le a abóboba se inquieta.
(okay, vamos preten
der que um d'
íamos per
correr o mun
do em 80 dias))
- e no dia procurar:
sabemos queu s
ou ou não um menino-
rapaz-homem romantic
o.
(porque apesar de
nós-mesmos não-termos nos-visto:
seiqueteamo)

sábado, 27 de novembro de 2010

assim como não queria, não tivesse um alicerce e ele virou-se contra a parede e se silenciou porque talvez o efeito do pré-procedimento começasse agora e aqui estou de frente a uma quadrela branca num quarto escuro iluminado pelas pequenas e ineficazes raízes do sol e as partículas de poeira, no quarto vejo um homem voltado contra a parede, silencioso. ignoro e continuo andando, paro para comprar o jornal na banca aqui perto de casa, ele de novo com esse papo de marque na minha conta, filho da puta tome aqui o seu jornal que não volte mais . ele se volve em prol da rua e continua sua caminhada. o dia passa e, tranquilamente, espero o final do expediente, até que aparentemente do infinito vem um puto, manda tudo que você tem aí coroa!, ele não me dá, disparo contra seu peito e fujo, trombo com uma garota, aquele homem ali derrubou meu sorvete! c'est la vie.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Prefiro não acreditar

Instruções para
Subir no banquinho
Apóia-se o pé direto (ou esquerdo,
à preferência)
sobre o mesmo
Vitaliza toda sua força nessa perna e
Num impulso, jogue seu corpo à frente
De maneira a transformar
O banquinho no seu chão.


Eu prefiro não crer que isto seja verdade. Nas minhas perdas, de tantas, prefiro acreditar que justamente esta não seja real, mas fruto da minha imaginação. Ando meio macambúzio, um quarto preocupado, e três me sinto singelo. Como a lua - a mesma que após pousar sobre teto de nosso apartamento decidiu pesar e destruir como uma baga na boca do estômago - E sangue. Só me lembro por enquanto dos passos finais, rumo à porta da frente: ríspida, uma rainha... Com seu rei a esperando do outro lado da rua, e você atravessando lentamente com o coração aliviado. Me viro de costas. Prefiro não presenciar com meus próprios olhos, os mesmos que encararam com tanto amor a puta deitada em minha cama na fatídica noite (pãn pãn pãn pããããn), tamanha extorsão. Ouço o crash... você chora, roga, pede por ajuda. E sangra. Prefiro não crer que isto verdade. A concubina morreu no braço de homem negro, que tem seus anéis agora banhados em sangue. A esta altura já tinha feito o laço da corda pendurada no ventilador, que gira por entre as quentes e abafadas brisas do verão tropical.






Agora chuta a porra do banquinho para longe.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

la guerre a commencé

A névoa da noite nos escondeu, nos escondeu
Nos escondeu.
Passeamos não tão tranquilamente pelas avenidas principais: safe.
Os não tão grandes olhos ardidos ardem como uma névoa
Nos escondeu
O fôlego é-dissonante: it's over.
o som é-peremptório: caos.
conferedação das nações unidas
fascistas.
Desespero derrete no meu corpo
em dois, um.
Só escutamos um ruído, de praxe subalterno: um motor.
Mas isso é inescrutável: a névoa
Nos escondeu.
O arbusto é um baixio-verde-de razões
01. paisagista
02. esconder
Mas a névoa.
É o início de um póssubmundo
in fact, o terceiro: estamos perdidos
Perdidos na paisagem, a névoa é
Nos es
condeu.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

o mundo há de acabar

o mundo há de acabar, o já dito e repetido pelo misterioso rapaz que circula pela vizinhança, pregando a imparcialidade. caminha pelas ruas tranquilo, pouco visto, dialogando provavelmente com alguém que imagina ser seu amigo, o que o acompanha pelo trajeto de ensinamentos: o mendigo, recauchutado na boca todas as manhãs pelas polícias, chora. se viu assaltando um homem de terno marrom, transeunte qualquer, de rolex no pulso e pasta na mão. por um momento sentiu-se ludibriado pelo diabo, por deus, mas idealizou seu real motivo, a sobrevivência. desde esse dia tornou-se ateu. idealizou o inferno dos céus quando se deu conta de que os chutes, na barriga do estômago, matinais, haviam acabado, mas preferiu não comentar nada sobre o assunto com ninguém; por via das dúvidas, de modo a reafirmar sua posição religiosa, juntou-se com o pregador desconhecido, que alegava ter vindo das terras de jericó, filho de plutão e micalatéia - o homem que não se alimentava e cuja saliva era sangue; seus dentes manchados pelo vermelho da hemoglobina, absurdo do incomum e salvação dos infiéis. o curioso fato de somente ateus e niilistas poderem vê-lo não só impossibilitou a documentação do pregador, mas deu a ideia de que o mendigo era um homem afetado, que seguia uma pessoa inexistente aos olhos cristãos e judeus e muçulmanos e candomblés e hindus e etc. a repercussão dessa notícia pelo mundo causou transtorno, provocou conflitos étnicos-religiosos por todo planeta, que destruiu-se inteiramente dentro de dez anos. nunca mais se teve notícias do pregador, mas deduzimos que o mendigo morreu arregaçado pelas supostas autoridades.

domingo, 17 de outubro de 2010

mais inspira ções

Básico instrumento que rege uma orquestra é a teoria, de homens sérios e cronópios quaisquer, e para reger essa orquestra chamada vida num cubo mágico intrínseco se soluções semi-impossíveis é preciso adotar a teoria de homens engraçados e cronópios paradoxalmente fechados a si mesmos, numa condição de contra-contra-contra(di(c)ção). Classicismo é a chave do modernismo e a vida é um fichário universitário de espirais e folhas listradas e ilustradas com cães de narizes vermelhos numa colméia de conhecimento limitado às massas como o mel às formigas que caminham por debaixo desta casa de abelhas em Paris.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

inspira ção

Quanto é? / Treze mais a taxa de três e cinqüenta / Pega 20 e fica com o troco.
Entrou de viés no apartamento, preparou um café e sentou-se no sofá vermelho, à espera dela. O tempo corria e ele esperava; atento ao ponteiro dos segundos que perdurava na parede da cozinha, possível de ver por uma breve fresta entre a porta e a parede. A campainha tocou, foi atendê-la.

Chegou a hora
Andou apressado
Tropeçou no cão
Girou a maçaneta, mas estava trancada
Espere aí!

Voltou-se para dentro do apartamento, remexeu no seu cachecol nada achou. Já vou!
Abriu gavetas, chutou quinas descalço, procurou na cafeteira e nada. Buscou ajuda de um vizinho, que o atendeu caridosamente emprestando-lhe sua chave. Parou por um momento e pensou no que estava mesmo fazendo? Ah sim.

Abriu a porta
Pediu uma meia calabresa meia portuguesa?
Porra.
Bateu a porta.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

É veneno!

O outono chegou e, com ele, pendurado às omoplatas, veio também o inescrutável: a recém-chegada à cidade chamada de Marie. No começo Malaquias tentou não se preocupar e não interagir, por receio ou mesmo por ser um rapaz especialmente taciturno; camponês, filho de pais escravos, cinco irmãos e uma irmã, levava uma vida razoavelmente sossegada, quando comparada a outros campesinos trabalhadores que sofriam de letargia e problemas respiratórios. Malaquias, ao contrário de toda população daquele pequeno ladarejo, era um jovem culto, adorava recolher-se no bosque, fugindo dos soldados reais, e deitar-se sobre as laranjeiras, empunhando seu livro até que caísse no sono. No fundo era uma pessoa romântica. Bem no fundo.

E o jovem camponês começou a se interessar por Marie. Interessou-se tanto que a mera admiração virou amor platônico.

Dias após o começo da obsessão, eis que, no vilarejo, é anunciada a chegada de Profane, homem inescrupuloso, convencido, herdeiro do rei Stencil e, como de se esperar, cobiçado por todas jovens do reino tão-tão distante. Veio num cavalo branco, escoltado por soldados da infantaria escocesa, com uma roupa parecida que dourada à ouro, de tão reluzente e chamativa. Moças de todo local e de todos os lugares se reuniram para vê-lo, enquanto Marie pendurava roupas no jardim de sua cabana. O príncipe, de longe, avistou-a, desceu do cavalo e dirigiu-se à ela, fascinado com a beleza da jovem. Qual é seu nome?, perguntava. Nunca vi olhos tão bonitos, dizia e futuramente repetia isso no seu castelo, nos cômodos aconchegantes da nobreza.

Tomado pelo desespero, Malaquias imaginou-se requisitando um duelo pela mão de Marie, mas a vida nobre é melhor para ela, constatava. Na tarde que antecedia o Inverno, exilou-se sobre o alto de uma montanha, pensativo. E do bolso apanhou um pequeno cantil d’água. Observando o horizonte, bebeu do líquido e depois de alguns minutos espirrou como se aspergisse a sua alma, desabando do penhasco como uma pedra apaixonada.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Fernando decidiu fazer uma viajem à Espanha. desde sua infância sempre foi um rapaz apaixonado por autógrafos; desde o momento que Abel, seu pai, lhe presenteou, aos cinco anos, com uma figurinha autografada pelo Zico das eras de ouro do Flamengo. o vício tornou-se cada vez mais possessivo e doentio. já não se podia levar fernando à desfiles de moda, já que em poucos minutos seus pais o perdiam de vista e o encontravam assediando uma das modelos em pleno desfile; tal como abordou um ciclista na reta final da maratona internacional. procuraram ajuda médica, mas o problema não era resolvido, visto que, impressionado com as habilidades do psicólogo, o bloquinho saltava em suas mãos e sua boca requisitava uma assinatura. nas vezes que lhe retiravam o bloquinho, Fernando roubava os testes de Rorschach para substituí-lo, e quando lhe confiscavam tudo, era tentado à um autógrafo no braço. a mãe culpou o pai e o divórcio não tardou a comparecer e a guarda conjunta foi ignorada e a figurinha de Zico continuava irretocável na gaveta de Fernando.

na sua viagem à Espanha, conheceu uma matritense e com ela consolidou um relacionamento esquisito; na cama, a espanhola gritava estás me embarazando!, e Fernando por sua vez sentia-se mal.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

cotidiano

e voltou para casa desolado. preso num mundo vazio. no volante suas lágrimas caíam e do lado de fora chovia. as luzes do farol indiciavam os traços de um verde abrangente, amarelo conclamativo e vermelho orgulhoso. eram apenas vultos na escuridão de um cidade fechada. luzes que tragavam a sua felicidade (e apenas a sua, pelo menos naquele momento, e que não veria nos próximos dias que seguirão). chegou em casa. estacionou o carro, chorando. tirou sua roupa. deitou-se ao lado de sua mulher, chorando. a abraçou, fechou seus olhos e dormiu.

sábado, 4 de setembro de 2010

antes

se
tudo
fos
se
como
era
antes
de nos
ver
mos e
as
sim
não
fos
semos
(tal
vez)
felizes?

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

o trânsito é como quase uma droga

parte I
mais uma tarde. sentado. desta vez em um táxi. um trânsito absurdo devora a grande sp. notícias. ficaram sabendo de uma invasão desconhecida lá pelos campos de marte. eu, no banco de trás de um veículo. à mercê dos olhares externos em meio ao congestionamento quase onírico; quase atordoante e claustrofóbico. os carros andam trechos de aprox. 5 metros após uma espera de 20 minutos. malditos trabalhadores. maldito capitalismo.

parte II
acordo. ainda estou sentado. aliás, no mesmo táxi. na mesma avenida. com os mesmos vizinhos. com a mesma sensação obtusa de olhar pros lados e ver carros e mais carros me olhando e dialogando entre si. como se uma reunião fosse ali planejada pelos automóveis. onírico. surreal. QUE PORRA É ESSA?. calma. preciso me estabelecer e pensar. minhas têmporas latejam. caralho, eu tô no banco de trás de um táxi indo para.. porra!... ok, estou indo... espere... para nenhum lugar! estou aqui dentro preso por um tão simples e banal motivo: por nada.

parte III
talvez tenha sido minha auto-estima. espancada há metros atrás. enfim. carros vem e vão. param. eles me seguem. chega. preciso sair daqui. abro a porta. me levanto. olho ao redor. bato a porta. caminho pelos corredores. paro. olho para trás. são meus vizinhos. eles abandonaram o veículo, como eu. e agora me olham. nem mesmo de soslaio. me encaram frontalmente sem dizer uma única palavra. torno a me virar, vejo o mundo em pé, mirando uma única pessoa cuja atenção é desviada pelos estouvados. é isso, estou fodido.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

inópia de amor

figuras à eternidade, teu belo e sutil olhar
tua face que alia termos à vida
teus dentes que mordem seus lábios
mordem como que a boca ensandecida

o desejo cada vez mais impetuoso
sinto o dever de sentar-se ao teu lado
o banco reserva lugar à dois
sento-me ao lado da moça do bálsamo perfumado

disfarço a admiração com um jornal à mão
minha existência resume-se a uma elegia
não percebes minha carência,
ó doce amante da burguesia?

sexta-feira, 23 de julho de 2010

histórias I

estava a pensar, se nascemos humanos psico-político-pensantes, por que não pensamos? pensamos, ainda que não pensemos o ideal, mas pensamos com nossas mentes psico-política-sociais. e por falar em sociabilidade,

ANTI-SOCIAL!,
era o que urrava minha voz da consciência, irritada com meus modos austeros e tímidos de interagir. como pensante, entrei em debate com minha personalidade e por fim,

ENLOUQUECI,
fui parar num manicômio trágico à beira do mar, que à noite recebia luzes fosforescentes da lua, bela lua, que me sussurrava aos ouvidos coisas que nem mesmo o seu Deus saberia interpretar. às vezes me debruçava sobre a janela única do meu quarto pintado de branco e com manchas na parede, e como pensador enlouquecia. repetia esse processo todos os dias, até a minha

MORTE,
que decretou então o fim da minha vida e da minha misantropia exarcebada e por aqui termino minha história. beijos e obrigado.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

el niño

me despierto del sueño
un sueño hermoso
una nostalgia del amor
los prantos en la cuna
el niño se cae
y junto a ti, soy muerto
no me he sentido eso
es algo nuevo, triste
pero no mucho consolador
en esquinas llorando y buscando
su mano izquierda en la oscuridad
atiento a que pasa e me mira
desviando los ojos, la mirada

segunda-feira, 12 de julho de 2010

boa noite

ele era um pequeno rei rosa na cidade sem nome. a pequena cidade sem nome possuia cerca de 86 bilhões de moradores. houve uma rebelião. nessa rebelião, se impôs o pequeno rei rosa de formato ignóbil.

motim interno. não-voluntariedade. é o fim.

86 bilhões desesperados, alguns pisoteados, explodidos, fodidos. o pequeno rei rosa (ironicamente porque na cidade sem nome era robusto) se atroou, chamou por ajuda ninguém ajudou.


'boa noite
hoje de manhã foi encontrado o cadáver (...)'

quinta-feira, 1 de julho de 2010

desfoque

acho que necessito de você mais que tudo nesse momento tão sólido e bestial das nossas vidas perdidas entre o pó branco e a folha de maconha jogada sobre o mezanino preto & branco que compramos quando ainda nos amávamos durante as férias no Brasil dias depois de termos nos conhecido numa praça de Buenos Aires em dia de jogo argentina x espanha.

acho que te amo e não saberia dizer outra coisa que não fosse tentativas decadentes de realçar nosso amor errático e sentimental da outrora comumente apelidada de reflexo das nossas lembranças felizes nos tempos onde aprendíamos sobre nós mesmos num jogo de tabuleiro chamado 'amor'.

lembra-se de quando estávamos a caminhar pelo Pelourinho e você me dizia que nunca me deixaria na mão? da forma mais sutil e ingênua eu acreditava em você e dentro dos meus pensamentos me comunicava diretamente com meu coração que palpitava fortemente quando estava junto a ti e tudo se esvaiu como um desfoque.

terça-feira, 22 de junho de 2010

éramos eu e você

olhando o horizonte e cativando ideias silenciosas, ouvindo somente nossos pensamentos pretensiosos e, afinal, pensando, sempre frente a frente com o pôr-do-sol decadente da bela vista a qual nos encontrávamos encarando. eu pensava em agarrar-te a mão, e você pensava que éramos amigos e nada mais. eu pensava em beijar-te, e você pensava em conversar. eu pensava no amor, você queria ir embora. só mais um pouco, eu insisto, o embaraço há de ajudar-me ao menos uma vez,

e pronto!, aperto firmemente sua mão finalmente, desvio meu olhar do poente e sigo-os em direção ao seu olhar, que por sua vez é escondido pelas pálpebras, as que escondem a verdade. meu coração palpita rápido, você respira fundo; aproximo minha boca da sua - fecho meus olhos como você - e encosto meus lábios aos seus. sinto meu coração parando, o miocárdio explodindo e uma felicidade contagiante invadindo minha percepção. éramos eu e você naquele romance nobre e (por que não?) imaginário.

domingo, 20 de junho de 2010

in the hot sun of a christmas day

dias após a morte de clara crocodilo
nasceu subitamente maria bethânia
bradou aos céus for 15 Steps
um leãozinho aproximou-se e disse
esse é o último romance
tire seu piercing do caminho
e is this it.

o dia do velório
i think i'm gonna be sad
ao som de the sound of silence
alan moore entristeceu
nasce uma estrela
boris grushenko morreu feliz
mas como, onde, o quê, como assim
como 2 ao cubo é 8 lados
geometria deltoriana
cigarros e cafés
bebidos e fumados por dentre
uma tarde sem valor
morte da criação brasileira
sabemos que você é um inútil
sem repúdio
ou quaisquer cracias
as bitucas exalavam o cheiro
a fumaça escondia nossa vergonha.

como se desesperadamente
chegasse como não quer nada
como se caísse
ou tropeçasse
no degrau da consciência
olho para mesa
vejo sangue derramado
um homem vomitando
sobre o leite esparramado
onde estará clara crocodilo
que sumiu, escapuliu?
morreu. the end.

domingo, 6 de junho de 2010

São Paulo 34 graus

a tarde era ensolarada e fazia uns 34 graus na cidade de São Paulo. Avenida Paulista e pessoas caminhavam transpirando por dentro das camisas fétidas e molhadas e rindo. divertiam-se os pedestres, que caminhavam pela única pretensão de caminhar e explorar a então celebrada avenida, agora tomada por um calor absurdo, capaz de fazer desmaiar aqueles que são fracos. o proletariado regozijava do tempo livre e andava nos longínquos calçadões, os mais conhecidos (ou usufruídos?) de São Paulo, suando e rindo.
No meio desta multidão, lá estava Zé Abraão, fraco, senhor de idade que passeava com sua neta de cinco anos para mostrar-lhe a beleza de Sampa sintetizada numa única rua (mentira, ele fora obrigado pela cara filha tão querida e amada). "ah, mas que calor está fazendo!". andavam, andavam, conheciam e exploravam o território comercial, e os raios de sol batiam sobre a testa calva de Zé Abraão, que bradava sussurros maliciosos e comumente insultava sua própria mulher, então falecida.
e o sol não estava para Zé Abraão, que pediu para a garota que se sentassem um pouco. sentado, inspirou e expirou lentamente, suspirou e sussurrou coisas que a pequena ingênua não foi capaz de entender. ele passava mal; já não aguentava mais permanecer naquela situação, transpirando tanto que "o suor acumulado seria capaz de encher o oceano Atlântico", pensava o velho.

é uma conspiração, um hediondo desafeto à minha pessoa. logo declaro, disse alto e erguendo-se, que está declarada a guerra.

domingo, 30 de maio de 2010

les temps de l'amour

um dia, talvez uma semana ou ao mesmo um mês. tempo que corre, discorre, suscita, indigna, contrapõe, altera o mundo e quem no mundo habita. imprevistos amorosos são imprevistos peripécios do amor consequentes da ação do tempo sobre o mundo. ponto, continua na mesma linha. l'amour est un sentiment provoqué par hasard. pula uma linha; acaso, amor, tempo. síncope do amor, do tempo, ocasionado pelo acaso. quem dera eu poder fazê-lo. ou não fazê-lo; suscitá-lo (no caso, je suis un entremetteur). flecha manchada de sangue do amor que atravessa o coração do não-apaixonado indignado na contraposição do relógio pêndulo na parede cor de vermelho no mundo que eu/ele/nós/vós habito (a(amos(ais))). afinal, estamos numa nova realidade 'les temps de l'amour', ou estou enganado?

quinta-feira, 20 de maio de 2010

se...

eu assoprei a bexiga vermelha
olhei à minha volta
corri pela multidão
pulei como nunca tinha pulado antes.

felicidade pelos dias,
os dias escolares que acabaram
e as buzinas ecoavam pelo pátio
como ecos perdidos nas estalactites
que via os tais expoentes pulando
como nunca haviam antes.

sonho realizado por fim
e a explosiva alegria que contagia
abandonava pensamentos retesos
consequentes da geração x
que até então estudava
e agora pulava no pátio do colégio

difícil imaginar o que será de nós
o que seremos agora aqui
o que quererão de nós.
a certeza é que estamos livres
porém não tão livres
como nossa exaltação indica
enfim.
o fato é que estamos perdidos.

discursos austeros não agradam
os regozijos pedem silêncio
um momento a refletir
1 único minuto que abriga uma concepção
silêncio, silencio

ouvimos tiros
procuramos a origem do som
vejo meus amigos sentados ao telhado
com winchester's às mãos
e aponto aos anarquistas
cabeças se viram e são explodidas
caos.
correm os saltitantes
não sobra ninguém.

nem a bexiga vermelha que flutuava inocente foi poupada.

terça-feira, 18 de maio de 2010

caso social/racial

Acordo desatento, simplesmente por levantar; a simbiose ou sei lá o quê do sonífero que me deram começa por fim a fazer minha cabeça. estou pelas surdinas detalhadas com latas de lixo embalsamadas pelo sangue jorrado na noite anterior. procuro meus companheiros - só acho um, ensanguentado e esparramado ao solo de concreto sujo e irregular do beco quase todo preto. a escuridão penetra pelas entranhas da sarjeta, num breu clareado por postes de luz que iluminam o resultado do conflito social/racial póstumo da noite anterior (ou pós-tragédia humana). meus amigos, todos mortos ou sumidos, foram vítimas do pré-conceito formulado por (des)humanos irracionais e filhas da puta, e eu agora só quero voltar para minha casa.
Saio do beco preto e vagueio pelas ruas de São Paulo. não sei onde estou (e sonolento, incapaz de pensar aonde moro ou qual caminho devo seguir), apenas vagueio cambaleante por algumas avenidas tomadas pelo caos da prostituição e da barbárie. sinto-me desnorteado, adoidado, alienado, morto.

não aguento mais.
então desabo a dormir,
podendo nunca mais acordar.