quarta-feira, 11 de abril de 2012

conto sem nome, de amor

Estranho perceber que somente agora, nessa minha fase final de vida, ocupo o tempo que me resta escrevendo artigos e textos aleatórios e literários para uma coleção pessoal; uma espécie de coletânea particular de memórias, lembranças e pequenos detalhes. O que me leva a isso eu talvez não seja capaz de explicar e nem nunca serei. O que me resta, ao menos agora, é aproveitar minha solidão e o que ainda me sobra de consciência para recordar antigos casos, amigos, amores e, principalmente, paixões - uma em especial me pesa sobre os ombros até os dias de hoje, a qual só a idéia de relatá-la nessas próximas breves linhas já traz consigo um aperto grande no coração.

Ela, na voluptuosidade de sua juventude em flor, loura esbelta, de ternura tão melindrosa quanto delicada, ousadia inaudita e rosto angelical. Eu, um estudante qualquer, sonhador apaixonado, deslocado, pertencente erroneamente àquele nicho estudantil de festas, drogas e casos reparáveis. Não que eu me considere um misantropo – na verdade, amigos não me faltavam -, mas essa condição de frustração amorosa e afetiva que me preencheu ao longo de toda a minha vida apenas decretava que eu era, e ainda sou, um alguém incapaz de expressar amor à pessoa amada; e se hoje tivesse direito a um desejo, pediria para voltar ao passado, para assim reparar a lacuna que abri quando a deixei ir embora, levando junto a si o completo desconhecimento da minha existência.

Você, filha de Icário, graciosa desde o início dos tempos, cuja efígie sensível e perturbadora acompanha as letras de um nome melodioso, que se repetem e se completam com um quê de sonoridade musical e esteta clássico, me desviava como ninguém jamais conseguira. Eram poucas as oportunidades que tinha de te ver, e mais raros ainda os momentos em que nossos olhares se cruzavam e pelo mais breve instante um mundo desabava sobre meus pés, mas foram nessas curtas circunstâncias que pude sentir, de fato, o que é amar.

Hoje li Faulkner, “as velhas feridas rolam vertiginosamente para a frente, mergulhando na escuridão onde se escondem novos desastres” e me lembrei-me dela. Você. Ela. Hoje ando nas ruas à espreita, na falsa esperança de um dia te reencontrar e te descrever minha tragédia antiga, na época já anunciada, premeditada, inevitável. Quantas foram as tentativas – frustradas – de abordar-te só e de poder começar um diálogo, pescando no fundo do coração palavras que te indiciassem de uma vez por todas que eu estava apaixonado.

Mas era impossível. Sua completa inocência e sublimidade me tragavam para um universo no qual qualquer tipo de expressão se torna inconcebível, e o que me remanescia era o desejo eterno de vê-la entre cada instante e momento.
Transformara-me em um andarilho como o gato, me admirando daquilo que não tinha. Buscava em tua figura uma paz interior e um sentimento de catálise espiritual além da minha própria compreensão, ao mesmo tempo em que você me corroia por dentro e confirmava minha imperícia de manifestar-me. Eu te amava, e hoje, sentado aqui, escrevendo entre inúmeros cafés e cigarros, pensando em meus antigos erros e em você, me sinto na obrigação de dizer que ainda a amo.

Até hoje ela escava a pedra da minha indiferença: para certas penas, o único remédio é o amor.

Nenhum comentário: